quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Castelo de Alandroal - O Grito dos Antepassados


De: João Cardoso Justa

Castelo do Alandroal
Por fim, o Grito dos Antepassados…

Antes de abordar as particularidades que motivaram este título, e, por julgar pertinente a publicação assinada pelo ex-arquitecto da Câmara Municipal, gostava de tecer sobre esse texto uma breve reflexão - Vejamos que mensagem nos transmite, basicamente, o técnico que acompanhou desde o início este projecto, dito de “requalificação” do Castelo - Enfatiza, no fundo, com a sua perspectiva profissional o que qualquer cidadão atento pode verificar. Que, apesar do avançado estado de deterioração da estrutura (talvez fosse boa ideia alguém da Proteção Civil verificar que o torreão virado a Sul está na iminência constante de tombar sobre as casas), e do consequente empobrecimento do património, os responsáveis autárquicos optaram por encomendar a um arquitecto “da moda” a planificação de um recinto de festas no seu interior (quanto terá custado esta “modernice”?). Por comparação, é como se o telhado da nossa velha casa estivesse prestes a ruir e, num afã de grandeza, contratássemos um “designer” futurista para nos remodelar a sala, e impressionar pela magnificência, os amigos e cúmplices das festarolas e jantaradas. “Show off”, fotos de inauguração, sorrisos iluminados, e Festa(!), que é disso que “a malta” gosta. 

«Se és sábio, não eduques o povo, o povo na ignorância permanecerá feliz» (vem nos Vedas, esta “receita” com mais de 5000 anos).

Fica pois, assim demonstrado, o respeito, a consciência cultural, e, sobremaneira, as intenções destes “políticos” perante um dos valores (desfeitos os outros por ambição e ganância a coberto de ideologias políticas) que ainda nos ligam, e a partir dos quais poderemos reinventar uma nova sociedade mais solidária e justa – a Verdade de quem somos, a nossa História, o caminho traçado desde há milhares de anos por homens que, num simples aperto de mão ou palavra dada, firmavam contratos mais honestos que as escrituras notariais dos dias que correm. Chamava-se “Honra”, essa forma de andar de cara levantada e limpa. Lembram-se? Possivelmente poucos entenderão ainda o sentido que lhe está subjacente e a sua fundamental importância em qualquer sistema social. E poucos, entenderão portanto, que a podridão e a falência da sociedade em que vive o Concelho e o País, deriva da substituição da honorabilidade, da verticalidade, por esta política de “faz de conta”, de engano, de venda do sucesso imediato, de um novo-riquismo em que a riqueza é a ignorância, de ilusões de segurança laboral a quem é impreparado e incapaz (saberemos o resultado quando a verdadeira Reforma do Poder Local imposta pela famigerada Troyka, [depois das eleições, é evidente, que os partidos têm travado esta reforma] colocar no desemprego a maioria dos funcionários que “os Padrinhos” têm acumulado, ou apilhado, na Câmara). E é desta inconsciência, desta ligeireza, desta escolha do fútil, do brilho imediato embora fugaz, que deriva toda a incúria, toda a incompetência que atravessou transversalmente todas as governações da nossa terra e, agora, (voltando à “vaca-fria) causou esta problemática “dor de cabeça requalificada” em que se transformou a obra do Castelo.

Do idealizado e "modernaço" salão de bailes e discotecas, emergem agora, por todos os lados, de épocas diferentes, intrusos, “desmancha-prazeres”, “desmancha-inaugurações”, os esqueletos e os vestígios de vida dos nossos Antepassados (quem poderia adivinhar um fenómeno destes?...). «Malditos Antepassados! Até a procissão das Festas está em risco!... Isto é coisa que se faça? Numa altura destas, depois de milhares de anos, é que se lembram de aparecer? Nem a Nª Sra. Da Conceição (as duas), nem o padre brasileiro, e, muito menos, a nossa Presidência, merecem tal desconsideração!!...».  Quer dizer, construiu-se no interior de um castelo carregado de História (teimosamente recusaram que assim seja) com a mesma sensibilidade com que se faz uma estrada, ou um aterro, num qualquer terreno baldio, e o resultado está à vista, ou estava, agora, possivelmente para taparem as atrocidades cometidas, trabalham, envergonhados, sob a cobertura de uma enorme rede. Ora, dizem os nossos pescadores, “existem peixes que nem com rede se apanham”, e, foi possivelmente algum, que, Anónimo, me enviou várias fotos desse ambiente escondido dos alandroalenses, em que gente alheia e insensível, remexe a seu belo prazer nos ossos dos nossos antepassados e destrói os fundamentos da nossa História. E, por desgosto meu e de quem tem consciência do valor que estas estruturas encerram, o que essas fotografias contam (e daí, o reforço da vergonhosa rede) é que outro CRIME arqueológico foi cometido junto às escadas da igreja.

Outro piso, este em xisto, (o outro destruído, é de tijoleira) enorme, e que aflora por baixo das escadas de mármore que conduzem à Igreja, estendendo-se (os vestígios são nítidos) até FORA do Castelo por sobre as sepulturas aí encontradas, foi também decepado, para todo o sempre, pelos dentes das máquinas do empreiteiro.

Senhores representantes do poder autárquico, senhor Presidente da Câmara do Alandroal, têm toda a autoridade para construírem os recintos de diversão que quiserem, mas NÂO TÊM O DIREITO DE DESTRUIR O NOSSO PATRIMÒNIO. Isso é um crime, tem consequências como devem saber, e por elas responderão! Foram V. Exas. avisadas, repetidamente alertadas, mas o uso do poder parece tornar as pessoas autistas, e agora aqui têm este lindo resultado – há esqueletos quase no meio da estrada e, (ò Azar dos Azares) lembraram-se agora, no Domingo há procissão… «Há que tapar tudo!! Venham antropólogas aos pares, venham arqueólogos aos molhos!! Há que tapar tudo que, com isto das procissões, o povo é bravo!!» -  São as ordens da nossa “Inteligenzia”… E tudo isto é ridículo, e tudo isto é trágico, e tudo isto é de uma pobreza intelectual absoluta. E, quando pensamos que é nas mãos desta classe de pessoas que o Concelho (e o País) está entregue, fica em nós, latente, incómodo, o peso da repugnância.

Por fim, o Grito dos Antepassados… E este Grito, vai “direitinho” para todos os técnicos, todos os cientistas, os seus pseudónimos, os engenheiros reformados (vivem á custa de reformas, é verdade), os companheiros e… e mais nada, que são os mesmos. Vai para todos afinal que, desde a publicação no Al Tejo da minha pesquisa sobre Lacóbriga, nestes blogues me acusaram de ignorante para cima, e para baixo sobretudo, quando defendi a existência de estruturas bastante mais antigas no local onde hoje se ergue o Castelo. «Aqui d´el Rey D. Diniz!!! Bradaram de mãos na incredulidade esses “génios” sapientes. E agora?... Agora, meus senhores… Agora o que bradam? Agora que, à vista de todos, o Castelo está construído sobre um cemitério e um vasto piso de xisto que indicia outras construções, o que argumentam V. Exas.?... Enfiaram o cemitério e as restantes estruturas por baixo das muralhas? Na verdade, basta de ridículo, meus senhores e minhas senhoras! E mais vos digo (agora que me parece desnecessário voltar a escrever sobre este assunto) – muito frágil seria o meu estudo e todo o trabalho que nele empenhei se, contasse com a sua validação por “arqueólogos ou candidatos” de província, pois, cujos conhecimentos históricos correspondem à sua dimensão. È a outro nível, noutros locais, entre eruditos da Antiguidade que a minha teoria será estudada quando a apresentar formalmente. 

Em boa verdade, se os crimes de destruição que efectuaram, não ensombrassem de luto todo este processo, até vos deveria estar grato por demonstrarem, no terreno, o que concebi por raciocínio.

Resistiram até ao limite, estrebucharam, espernearam, inventaram datas (a responsável daquele Centro Interpretativo Que Não Se Sabe O Que É, numa semana, mudou de opinião dez séculos, mil anos(!) sobre a datação das estelas (funerárias), de tudo fizeram para esconderem o passado mais remoto desta gente, mas foram eles, os nossos Antepassados que, num GRITO desesperado, no último metro da escavação, do interior DAS CAMPAS ENCONTRADAS FORA DO CASTELO, quem gritou – Estamos aqui! Esquecidos! Apagados da História! BASTA DE ESQUECIMENTO! CONTEM A NOSSA HISTÓRIA!!!...
E é esse grito, que vos perseguirá ao longo da vossa pouco promissora carreira.
Passem bem, e boas Festinhas...
João Cardoso Justa


Um comentário:

Elso Balixa disse...

Boas, quero aqui congratular o Sr. João Cardoso Justa pela forma como escreve e descreve o que acha que se está a suceder nas "obras do castelo"
Aprecio sempre uma opinião válida.

Na minha opinião,
Só espero é que daqui por 500 anos quando o actual cemitério estiver soterrado(ou não)o meu esqueleto conte a minha triste história que deve de ser igual à dos actuais que estão neste momento a ser descobertos no castelo...!
Não irão por lá descobrir tijoleiras pois não as há por lá(ainda), ao que sei as que estão no tal piso milenar que muitos gritam, tem apenas 200 anos...
Bom, ou não percebi ou encontrei apenas um lapso nesta opinião:
"...Que Não Se Sabe O Que É, numa semana, mudou de opinião dez séculos, mil anos(!)"
Podia ter acabado sem ameaças, não lhe fica bem...
Que continue por aqui a dar-nos estes minutos de boa leitura porque há quem precise e muito.
Elso Balixa

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